Da série "Poemas que eu vou amar eternamente"
PSICOGRAFIA
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo da palavra: não digo
(não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
(Ana Cristina César)
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Quando Ana me deu um anel, eu disse que não. Aí ela me ofereceu um pedaço de bolo e eu abaixei a cabeça. Então, foi a vez dos pratos quebrados. Depois dos pratos pra eu quebrar. A tranqueira era sempre um mas. Trancada na cama, deitada, crescendo e não era mais nada o que eu queria. Era sem-querer que eu não encontrava, os traços cresciam, os cacos caíam e eu não. A culpa não era de Ana. Era o tempo passar vazio, vaga lembrança de uma silhueta que não existe mais. Não ponho os pés no chão por que não tenho memória. Não tem nada a ver com Ana. Ela, alva, é que não haveria de trazer um navio para me embarcar. Eu perderia de vista toda a terra. Eu mergulharia, Ana me levaria, eu seria âncora.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
O rosto de Bruno ainda inunda meus olhos abertos. O sopro de Bruno me submerge. Meio dia, quase, é ele quem volta os olhos para a montanha que assiste desde cedo. Bruno jaz sob água de chumbo, translúcida, não importa. Vê o céu mas jaz a incontáveis palmos de qualquer passarinho. (Que diferença faz ver passarinhos de perto? O céu de perto ainda é o de longe, você verá quando andar de avião pela primeira vez.) Borboletas pesam sobre os cílios e bruno, seus olhos têm dentes, seu nome, foi o pai quem deu, contará soluços tenros até que a saliva pare de escorrer.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Parto. Não me cabe essa fatia. Dou a volta em torno da mesa. A torta é a mesma. Torta. Barulho em baixo da toalha lisa. Nada. As formigas fazem silêncio. Emergem xadrezas sob a torta. Sobre a toalha, debaixo da torta. Clara. Torta. Cruzo as pernas. Cadeira. Frases sempre mais curtas. Pés resignados. Meus. As formigas caminham e fazem silêncio e caminham sempre. Tortas caminham sob o forro da mesa. A fatia aguarda.
Sente-se, meus verbos serão todos tão imperativos quanto meus desejos. Voltarei quando você se sentar. Ainda, anda, senta. Não, volta, senta. É vazia a boca que te cospe. É manco o gesto que te interrompe. Senta e podemos até criar um livro de provérbios milenares. Ejacular a faca da sua mão. Tombar sobre a pedra crânios vermelhos. Senta, vamos tentar. O tempo está bom, senta. Guardarei a sobremesa permanecerei quieta, aqui, neste mesmo lugar. Você agüenta esse pulso, a pele espessa, os tendões. Você senta e eu te compro uma revista, um bombom, haverá uma brisa. Faço companhia até alguém voltar. Discutiremos cidades, concreto, áreas de lazer. Concordaremos. Farei café e o tempo vai passar. Estaremos despertos, de pé, sobre a pedra fundamental. Afundaremos juntos, porque cabe a nós e a mais ninguém. Assistir programas na televisão, dormir tarde, ter cachorros, filhos, paredes, cds. Não sucumbir ao sorriso do céu cinzento deixar que uma nuvem apenas espanque nossos corpos sobre o asfalto, despenque molhada, gasosa e, gentil como carne de mãe, não provoque nenhum espanto. No tempo, as roupas irão secar.
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